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Ensaio sobre Natal antecipa desenvolvimentos da antropologia
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Tópico: Exposição de artes
Exposição de artes

A Cosac Naify acaba de publicar, oportunamente para as festas de fim de ano, um ensaio in?dito em português do antrop?logo francês Claude L?vi-Strauss sobre o significado de Papai Noel e do Natal.

A empreitada pode parecer simp?tica, por?m prosaica, à primeira vista. Trata-se, no entanto, de um lance de enorme pretensão de um dos maiores pensadores do s?culo 20.

Publicado em 1952, "O Supl?cio do Papai Noel" procura aplicar os princ?pios metodol?gicos da antropologia estrutural, criada e testada na lida com outras sociedades, a uma pr?tica moderna e ocidental...



Publicado em 1952, "O Supl?cio do Papai Noel" procura aplicar os princ?pios metodol?gicos da antropologia estrutural, criada e testada na lida com outras sociedades, a uma pr?tica moderna e ocidental.

L?vi-Strauss antecipava-se assim, em d?cadas, ao projeto de pensar as sociedades industrias a partir de suas relações e diferenças com as chamadas sociedades "primitivas" ou "tradicionais", projeto que tem sido levado à frente, mais recentemente, por figuras de ponta da disciplina, como o norte-americano Roy Wagner e a britânica Marilyn Strathern.

Papai Noel surge no in?cio do ensaio, em not?cia de jornal, com as barbas e o resto do corpo queimados. A Igreja Cat?lica francesa, pouco depois do final da Segunda Guerra e incomodada com o crescimento em importância desta figura ao mesmo tempo pagã e norte-americana, andou promovendo umas cerimônias curiosas, em que ateava fogo ao barbudo, dentro de igrejas e diante de criancinhas ?rfãs.

Importância

A igreja, com sua experiência no assunto, não costuma errar ao atribuir valores significativos a manifestações sociais, diz o antrop?logo francês. E o significado de Papai Noel e do Natal moderno são capitais, ele diz. Como compreendê-lo?

Primeira operação: nas festas natalinas, desde os tempos das comemorações pagãs em celebração do solst?cio de inverno e da "volta" gradual da vida ap?s o auge da escuridão, as sociedades costumam perder, ao menos simbolicamente, a divisão tradicional que as caracteriza _em classes ou grupos sociais hierarquicamente diferenciados. Trata-se, afinal, de uma festa de "reunião e comunhão".

L?vi-Strauss faz aqui, explicitamente, uma aproximação entre o Natal e o Carnaval, no abandono tempor?rio, ainda que simb?lico e parcial, das distinções "verticais" de uma sociedade, o que pode em princ?pio causar alguma estranheza.

? interessante, por isso mesmo, encontrar aproximação semelhante num artigo de 1940 escrito por Graciliano Ramos, recolhido no livro "Viventes das Alagoas" (Record).

"No interior, tudo ? diferente", ele escreve. "Nem francês de barbas, nem ?rvore com frutos enrolados em papel de seda, poucas mesas fartas, ausência de piedade". Ap?s chamar o Natal sertanejo de "festa profana", o escritor alagoano a descreve assim: "Uma grande feira, tem muito do carnaval e dos torneios art?sticos".

Troca de distinções

Pois bem, em lugar da divisão socioeconômica e hier?rquica, continua L?vi-Strauss, lança-se mão temporariamente de uma nova divisão simb?lica: desta vez entre crianças, que receberão os presentes, e adultos, que trabalharão para a manutenção do segredo que cerca a não-existência de Papai Noel.

Cumpre ao velhinho, portanto, ao mesmo tempo separar (uns, adultos, conhecem a sua não-existência; outros, crianças, nele acreditam) e unir esses dois grupos (os presentes passarão de uns a outros por suas mãos).

Segunda operação: encontrar outras relações, diferentes da divisão original promovida por Papai Noel, que com ela se relacionarão, que darão sentido a essa divisão entre crianças e adultos. ? isso, uma analogia, de certo modo a forma geral de qualquer significado, para L?vi-Strauss. Na troca de presentes, crianças e adultos estão em relação com o quê?

Com a morte e com a vida, para dizer de uma vez. Trata-se de uma questão desta magnitude, segundo o antrop?logo. O trabalho do artigo ser? mostrar que as crianças podem justamente significar a morte (usando exemplos de outros costumes e festas, mas tamb?m apoiado na l?gica de que ambos são figuras de um "outro", de uma alteridade em relação aos adultos, passando pela representação, mais f?cil, de pequenos anjinhos), e que h? um sentido em lhes dar presentes.

Colocando-as nesse "lugar simb?lico", lugar que fica no al?m, garantimos, ainda que precariamente, nossa vaga do lado de c?, e reforçamos, digamos assim, nossa relação com a vida, esse valor constantemente ameaçado.

"Sem d?vida, h? uma grande distância entre a prece aos mortos e a prece repleta de conjurações que, todos os anos e cada vez mais, dirigimos às crianças --encarnação tradicional dos mortos-- para que, acreditando no Papai Noel, elas consintam em nos ajudar a acreditar na vida", escreve o antrop?logo.

"A crença que inculcamos em nossos filhos de que os brinquedos vêm do al?m oferece um ?libi ao movimento secreto que nos leva a ofert?-los ao al?m, sob o pretexto de d?-los às crianças. Dessa maneira, os presentes de Natal continuam a ser um verdadeiro sacrif?cio à doçura de viver, que consiste, em primeiro lugar, em não morrer."

Que lição se pode ainda extrair desse estranho conto de Natal? L?vi-Strauss nos apresenta, aqui e em toda a sua obra, uma dial?tica que não comporta s?ntese. O significado sempre une sem igualar, e distingue sem cindir. O encontro final entre termos, id?ias e grupos relacionados --ou seja, o fim da diferença entre eles-- representaria o fim da possibilidade de sentido ou, dito de forma mais dram?tica, a morte.

Gente que leu L?vi-Strauss a s?rio nos oferece hoje, tantos anos depois desse ensaio, as mais interessantes propostas interpretativas das sociedades industriais.

Leituras que conseguem evitar a pulsão de morte de certas dial?ticas --de direita ou de esquerda-- que buscam ou, pior, j? encontraram, algum fim para a hist?ria.

"O Supl?cio do Papai Noel"
Autor: Claude L?vi-Straus
Tradução: Denise Bottmann
Editora: Cosac Naif
Quanto: R$ 25 (56 p?gs.)
Avaliação: ?timo


fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u482220.shtml


 
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