
Linhas pontilhadas tentam conter uma explosão contra o fundo branco da
parede. ? um limite grosso, tão pesado quanto a pr?pria carga, para
fazer saltar aos olhos o que o artista Marcello Nitsche enxerga como
"explosão cotidiana".
| Divulgação |
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| Tela de Paulo Monteiro que integra a individual do artista na Estação Pinacoteca |
Na sala ao lado, Paulo Monteiro lida com outra explosão, a da
mat?ria que não cabia mais nos quadros e transbordou para suas
esculturas em chumbo, tão carregadas que parecem tombar, derreter no
espaço.
Nitsche e Monteiro têm individuais lado a lado na Estação
Pinacoteca: o primeiro mostra um conjunto de dez telas dos ?ltimos dois
anos, todas representações figurativas de explosões, fogo e fumaça; o
segundo ganha uma retrospectiva de sua obra, com 140 pinturas,
desenhos, guaches e esculturas...
Em telas no mesmo formato das nuvens de fumaça, que descartam o fundo,
as explosões de Nitsche tamb?m são, de certa forma, escultura. Ele d?
relevo à pintura que precisa perder o chão para ganhar o c?u. "? a
forma de fechar, conter a explosão", descreve. "Elas têm mais força
porque estão presas."
Da mesma forma, Monteiro foi reduzindo a superf?cie, para conter o
gesto cada vez mais, at? que o peso da tinta cedesse às linhas ralas do
guache e do desenho, abrindo caminho para uma produção escult?rica em
paralelo. "Não foi que eu cansei desse peso", diz Monteiro. "Eu parei
de pintar grosso porque achei que chegava ao resultado mais r?pido, a
mat?ria ficou para as esculturas."
Na grande sala da retrospectiva, uma tela de Monteiro dos anos 80,
?poca em que tentou trazer de volta a pintura como parte do grupo Casa
7, funciona como esp?cie de ?mã, sugando para o plano bidimensional
todo peso e mat?ria. A tinta, em gestos e texturas violentas, afoga a
superf?cie do quadro.
Do outro lado da sala, s? os desenhos, linhas negras sobre fundo
branco, num reducionismo atroz. Entre uma parede e outra, entre a
pintura e o desenho, a mat?ria escorreu para as esculturas em chumbo,
no centro da sala, todas com as marcas da mão do artista. "Tem essa
coisa do gesto, que estrutura e desestrutura tudo."
Quanto à estrutura do mundo, s? as imagens para contar a hist?ria da
trag?dia que se repete. Nitsche se afastou do abstrato porque o assunto
pedia.
Nome forte da arte contra a ditadura nos anos 60, o artista descarta
o conceitualismo que marcou o in?cio de sua carreira para pintar a
qu?mica deslumbrante da explosão: fogo, detritos e fumaça branca e
preta.
Fazendo um contraponto hist?rico, como a tela da Casa 7 de Monteiro,
a escultura "Buum", de 1966, mostra, ao lado das explosões figurativas,
que a estrat?gia mudou, que o 11 de Setembro, assunto de Nitsche agora,
tornou a bomba objeto cotidiano e fez o mundo acelerar rumo à
decadência.
MARCELLO NITSCHE E PAULO MONTEIRO
Quando: de ter. a dom., das 10h às 18h; at? 22/2
Onde: Estação Pinacoteca (lgo. General Os?rio, 66, tel. 3387-0185)
Quanto: R$ 4; s?b., gr?tis
fonte: http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u479911.shtml
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